segunda-feira, 14 de junho de 2010

SONHO DE PENSAMENTO

Nas vastas amplidões dos serenos campos
Corri além dos vales amarelos
Transportando nos mais altos crepúsculos
As noites com que sonhava
A grama encarnada coberta de orvalho
Parecia estender-se como tapetes de algas
Murchas na maciês das colinas
A brisa gélida de quase junho
Transgredia a ponta do meu nariz
Como um toque sutil e ávido
Folhas secas voavam
E dividiam o céu alaranjado
Com pássaros cinzentos
Burlando o colorido som do vento
Que movia os galhos dos arbustos
Tudo era tão simples...
O cheiro da água cristalina
O jorro do pequeno córrego
Dobrava e erodia vagarosamente
As pedras que ali estavam depositadas
O tudo e o todo era sublime
Cobras e lagartos
Desenhavam estranhas figuras
Na areia pálida do descampado
Vagarosamente
Extremamente lento
O sol despontava como rei supremo
As cores do prisma
Delineavam ainda mais a paisagem:
Amarelo, ciano e magenta
E o sonho mudou de cor

Em 11/04/2003
Boa Vista do Tupim - BA

domingo, 13 de junho de 2010

FÍSICA GEOGRAFIA

Curva do sol atraente
Talvegue nos vales profundos
Ternura dos trópicos ardentes
Lugares de mundo,  no mundo

Grandes escarpas escuras
Paredes, douradas falésias
Traços, rabiscos, hachuras
Sombras da geodésia

Sulcos de planos terrenos
Cadeias de altas montanhas
Estreito de golfos pequenos

Distantes meridianos paralelos
De uma física geografia
Severos mapas amarelos

Em 11/04/2003
Boa Vista do Tupim - BA

quinta-feira, 10 de junho de 2010

DANÇA DAS BORBOLETAS

Abram as portas
Escancarem as janelas
Deixa entrar em minha casa
Na sua casa
Borboletas amarelas

Brilhantes, coloridas
Florescentes com a luz
Invadem toda a sala
As borboletas azuis

Tragam sonhos
Espalhem vida sob as telhas
Batam asas, batam asas
Borboletas vermelhas

Tragam esperança
Cheguem cedo ou tarde
Pelas frestas e cantinhos
Surgem borboletas verdes

Rasguem o céu
Derramem qual tinta de caneta
É o mistério e a beleza
Das borboletas pretas

Invadam os quartos
Com som, poesia e prosa
Encantem de desencantem
As borboletas rosas

Minha casa está aberta
Soem guizos e trombetas
Que se abra hoje e sempre
Para a dança das borboletas.

Em 29/05/2005
Serrolândia - BA

quarta-feira, 9 de junho de 2010

NENHUM LUGAR

Nenhum lugar existe
Confusa sincronia de ideias
Falsas relações quotidianas
de lugar para lugar
Longe ou perto
O fluxo comemora
Comemora o alvorecer
De mais um dia de solidão
No qual todos os demais
São meros expectadores de si mesmos
E o que é o ser, o existir?
Dramática concessão dos fatos
Invenção de realidades
Para outra realidade:
Nuvem, vento, água, sol
Passam e transformam
Revisitam e deformam
Imaginar e buscar
Entender e deduzir
Que nenhum lugar existe

Em 11/04/2003
Boa Vista do Tupim - BA

terça-feira, 8 de junho de 2010

ME LEVA POESIA!

Me leva poesia!
Me leva pra longe daqui
Me faz imaginar
Sonhar, sorrir

Quero sentir a brisa suave
Voar no mais alto céu
Pousar no canto dos pássaros
E banhar-me em rios de mel

Desprender-me de um corpo insano
Ser luz no fundo do espírito
Criar as coisas mais absurdas
Tonar o limitado, infinito

Cantar o meu silêncio
Me leva poesia!
Deixa-me ser livre
Transitar na fantasia

Muda-me a cada momento
A cada instante, uma alegria
A cada tristeza, um desafio
Me leva poesia!

Em 01/12/2003
Serrolândia - BA

segunda-feira, 7 de junho de 2010

FUGA

Verniz de sangue
Que cobre o dia cinzento
Calor sufocante
Vida e desalento

Tintura mórbida
Sem cor e sem vida
Palavra sórdida
Coisa esquecida

Face sem expressão
Olhar opaco
Mar de escuridão
O toque sem tato

Boa Vista do Tupim, julho de 2001

sábado, 5 de junho de 2010

ERA UMA ÁRVORE

Era uma árvore grande e robusta
As raízes fincavam com firmeza
Seus grossos troncos não chão
A copa ocupava
Um vasto diâmetro ao seu redor
Nos ocos de seu caule
Viviam muitos insetos e roedores
Em seus galhos
Vários pássaros construíram ninhos
(inclusive o joão-de-barro)
As flores que dos ramos brotavam
Perfumavam tudo por perto
Os frutos saborosos
Alimentavam imensidades de animais
Grandes e pequenos
Abrigavam-se na sua sombra refrescante
Suas folhas, ao caírem
Adubavam a terra num ciclo initerrupto
À noite,
O vento balançava a gigantesca e velha árvore
Numa dança mágica de movimentos e sons
Mas um dia
A árvore suncumbiu em segundos
Ao poder destruidor e estúpido da serra-elétrica
O que era belo
Resumiu-se a galhos secos retorcidos
E lenha.


Em 11/04/2003
Boa Vista do Tupim - BA